Por Ana Júlia Ramos

Uma quase jornalista apaixonada por séries de televisão, cinema, livros e péssima em auto descrições.

Publicado em 30/06/2018. | Atualizado em 28/08/2018


Já parou para pensar se você está acomodado ou na sua zona de conforto?

É possível que você já tenha escutado, pelo menos uma vez na vida, alguém falar sobre “zona de conforto” e como é preciso fugir dela ao máximo. Se não for o caso, faça um exercício rápido: digite a expressão no Google e veja sobre o que tratam os primeiros artigos que aparecem nos resultados da busca.

E se eu te disser que, na verdade, a zona de conforto não é um lugar tão ruim assim? E que talvez as pessoas a estejam confundindo com outra palavrinha bem parecida: a acomodação?

No texto de hoje, você vai aprender a visualizar este “estado de espírito” sob uma perspectiva nova e compreender que não é tão ruim assim viver com segurança e estabilidade.

O que é a temível zona de conforto?

“Por que você deve sair da sua zona de conforto?”, “por que viver na zona de conforto está atrasando a sua vida?”, “como sair da zona de conforto e mudar de vida?”, “4 passos para deixar para trás a zona de conforto”.

Conteúdos que vêm de todos os lados (não somente da internet) ao longo dos anos fizeram com que a expressão “zona de conforto” ganhasse uma conotação completamente negativa.

Por causa disso, aquele amigo aparentemente preguiçoso, acomodado, que se mantém alheio em meio a todas as atrocidades da vida e não dá sinais de querer mudar passou a ser considerado como alguém que não consegue sair da zona de conforto.

Isso fez com que tocar no assunto automaticamente se transforme em uma conversa de autoajuda a respeito de como ele precisa sair urgentemente dessa fase, dar uma chacoalhada na rotina e recomeçar do zero.

“Que tal fazer uma atividade nova?”, “por que você não larga o seu emprego?” e “o relacionamento já está ruim há tanto tempo, não acha que está na hora de terminar e partir para outra?” são apenas algumas das palavras de apoio que ocasionalmente podem surgir em meio a uma conversa sobre a temível zona de conforto.

Assim, ela virou um lugar onde moram os fracos e incapazes. A partir de todo o estigma que foi criado em cima do assunto, começaram a surgir discursos rasos e sem fundamento a partir de um grupo de pessoas ainda mais específico: o daquelas que “gostam” de estar na zona de conforto.

Será que os discursos da sociedade moderna alimentam essa ideia?

Estamos inseridos em uma sociedade que passou por mudanças de hábitos muito drásticas em um período de tempo relativamente curto. Em um passado não tão distante, as crenças e a forma de ver o mundo eram muito mais conservadoras e — adivinhem? — acomodadas!

Atualmente, a vibe “free spirit” tomou conta da juventude, e os hábitos respingaram também nos adultos. É fácil ver por aí pessoas que largaram tudo para viver um sonho ousado da noite para o dia ou aquelas que não mantêm laços permanentes em lugar algum.

Houve uma desconstrução a respeito dos moldes do que é viver em grupo e do que é ser uma pessoa inserida em uma sociedade intensa e informatizada, que se modifica completamente segundo após segundo. Mas… E quem não pensa da mesma maneira?

Ao se deparar com pessoas que não se encaixam tanto no que é pregado nos tempos modernos, a tendência é culpar a zona de conforto antes de analisar de verdade a situação de cada um.

A partir daí, é criada uma atmosfera de julgamento a respeito de um estilo de vida que não é errado, mas que apenas não condiz com o que é socialmente aceito no momento.

Por que estar na zona de conforto não é ruim?

Depois de compreender como a zona de conforto é vista pelas pessoas e levantar a possibilidade desse pré-conceito estar ligado aos moldes atuais da sociedade, é hora de ver o outro lado da situação.

Acredito que tenho certo respaldo para falar sobre o assunto, porque sempre fui a pessoa que gostou muito de estar na própria zona de conforto e nunca teve vergonha de dizer isso em voz alta.

Desde muito nova eu fui uma menina ambiciosa. Gostava de estar à frente dos grupos, como representante de turma, ajudante da professora, capitã de algum time na aula de educação física ou integrante da comissão de formatura.

Esse traço em minha personalidade fez com que as pessoas criassem grandes expectativas em relação a mim e ao meu futuro. O que não era pensado, porém, era a possibilidade de eu não corresponder à maioria delas.

O tempo passou, e eu continuei me desafiando dia após dia. Porém existia um certo “problema”: eu gostava de me sentir confortável na maioria dos aspectos da minha vida. Seria, então, o exemplo perfeito de pessoa presa na zona de conforto, da mesma forma que já falamos durante este artigo.

Por exemplo: ao entrar na faculdade, comecei a viver inúmeras situações dignas da “vida adulta” que levaram as pessoas a me dizerem incansavelmente sobre como eu estava estagnada, não buscava por oportunidades melhores ou deixava a vida passar enquanto vivia uma rotina comum.

O motivo disso não era muito bizarro ou complexo: eu simplesmente estava feliz com meu conforto. Minha vida no estágio estava boa, o relacionamento com a família e os amigos também, assim como a situação na faculdade.

Diante de tudo isso, porém, eu não vibrava loucamente sobre como minha vida estava correndo de forma quase perfeita. As coisas estavam bem, mas era só isso. Nada demais.

Não havia uma viagem planejada para o próximo mês, e eu não estava perto de receber qualquer bonificação, aumento no salário ou coisa do tipo. Mas tudo bem: era o melhor para mim naquele momento.

Ao me afirmar como alguém que estava satisfeito com a vida aparentemente “medíocre”, eu era vista por todos como uma pessoa conformada e presa na zona de conforto. Recebia, diariamente, conselhos sobre como existe um mundo gigante lá fora e como eu estava perdendo tempo me mantendo presa na rotina.

Eu realmente estava vivendo na zona de conforto. Mas isso não era algo ruim para mim e não deve ser para qualquer outra pessoa.

E quando a zona de conforto se transforma em acomodação?

O problema se encontra quando uma pessoa entra em um estágio constante de acomodação, que é diferente da zona de conforto.

Vamos pensar em um outro exemplo: Carlos é um homem que trabalha na mesma empresa há 15 anos. Seu salário é interessante, porém nada muito expressivo. Ele não costuma viajar muito, nem é uma pessoa conhecida por gastar muito o seu dinheiro.

Ao começar a traçar a personalidade desse homem, posso pensar que talvez ele esteja na sua zona de conforto, como eu estava. Talvez Carlos goste de viver dessa forma, mesmo que para outras pessoas possa parecer entediante.

Porém, uma informação sobre a trajetória de Carlos é importante: ele não é feliz no seu dia a dia e já recebeu convites para trabalhar em outras empresas, com salários melhores e possibilidades de crescimento.

Mas ele nunca aceitou: sempre se sentiu desmotivado a levantar da cadeira e buscar uma evolução na carreira.

Então, ele pode estar acomodado. A acomodação geralmente é prejudicial para a pessoa, porque as oportunidades estão à sua frente, mas ela tem medo de crescer e se sente ameaçada por desafios, mesmo que o cenário futuro seja muito mais promissor com a mudança.

Provavelmente o Carlos está insatisfeito com o seu trabalho e reclama pelos corredores sobre a sua vida, mas também não faz nada para mudar. E tenho certeza que você conhece alguém como o Carlos, não é verdade?

Mas é claro que, para saber se alguém está na zona de conforto ou de acomodação, é preciso avaliar a situação de cada um.

A empatia deve andar lado o lado em todo e qualquer discurso que envolva traços psicológicos de uma pessoa. Afinal, nem tudo é o que parece ser! O que para mim é legal, para outra pessoa pode ser abominável.

O erro está no nome, então?

É possível dizer que sim.

O problema em torno da zona de conforto é a nomenclatura escolhida para definir algo que na verdade não é um problema.

Pense na palavra conforto. Você está confortável no corpo em que vive? Está confortável em meio ao seu grupo de amigos? E com a sua carreira?

Tenho certeza que, caso a resposta seja sim, isso é algo legal na sua vida. O conforto, então, não deve ser visto como algo negativo.

É justamente em razão da expressão mal utilizada que grupos que debatem o assunto (geralmente formados por psicólogos) sugeriram que situações como a do Carlos fossem batizadas de uma maneira diferente, que pode ser a “zona de acomodação”.

Nessas situações, conceitos como conformismo, preguiça e ignorância podem estar relacionados ao momento que a pessoa vive. E, nesses casos, apesar das dificuldades, ela deve buscar combatê-los para sair da acomodação, porque isso está prejudicando a sua vida.

É diferente da “zona de conforto”, da qual a pessoa talvez não queira mesmo sair.

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Como perceber que a acomodação é o real problema?

Nunca tive uma vida digna de filme: na verdade, é possível dizer que estou inserida em um contexto completamente normal de qualquer jovem de 21 anos de idade que vive a mesma realidade do que eu.

Vamos, então, adaptar um pouquinho a situação. Imagine se, no lugar de uma vida legal no estágio, eu tivesse uma chefe que não se relacionasse bem comigo, e vice-versa.

Isso é normal e acontece no mercado de trabalho. Mas avance mais um pouco e imagine que o nosso relacionamento tem prejudicado o meu trabalho. Não me sinto feliz e muito menos motivada em levantar para trabalhar todos os dias.

De toda forma, assim como o Carlos, não faço movimento algum para mudar. Muito pelo contrário: sempre que reclamo em estar nessa posição, já me esqueço do que passou e só lembro novamente quando for reclamar de novo.

Os meses passam, eles se transformam em anos e eu vou vivendo. A insatisfação chega também na vida pessoal e na faculdade, mas ainda assim não faço nada.

Conseguiu perceber a diferença? A situação do meu “alter ego inexistente” se encaixa no conceito de zona de conforto que foi significado pela sociedade, mas… E se eu te disser que, na verdade, isso é nada mais, nada menos, do que acomodação?

Sabendo disso, não julgue aquele amigo que vive uma vida mediana aos seus olhos.

Não é todo mundo que pode (ou que gostaria de) jogar tudo para o alto e chacoalhar a própria vida. Existem pessoas, como eu, que gostam de se manter seguras, ou até mais do que isso: que precisam dessa segurança para viver.

E então? Onde eu estou?

Agora que você já sabe o que é a zona de conforto e o que é a acomodação e, mais do que isso, sabe diferenciá-las, é hora de descobrir onde você está.

Para isso, faça um exercício simples de mentalização a respeito da própria vida.

Existem pessoas que estão felizes com suas próprias rotinas, que não sentem nenhuma necessidade de mudar algo na vida (pelo menos agora) e que acordam se sentindo satisfeitas em relação ao rumo das coisas.

Atrocidades e problemas acontecem, afinal ninguém tem uma vida perfeita, então é comum sentir vontade de mudar no meio desse processo. A questão é a seguinte: você pode apenas não se sentir confortável ao ponto de jogar tudo para o alto ou mudar os próprios hábitos radicalmente, e está tudo bem.

Existe um outro tipo de pessoa que consegue reconhecer uma fase negativa na vida que precisa de mudança para que, dessa forma, a felicidade seja alcançada. Ela percebe que algo está errado, porém opta por ignorar seus problemas e não se mostra com vontade de buscar por alternativas que possam tirá-la daquele momento negativo.

Cabe a você, pessoalmente, entender qual dos dois cenários se aplica na sua realidade.

E aí? Acredita que este artigo pode te ajudar a ser uma pessoa menos acomodada e a aceitar suas características próprias acima de todo julgamento que possa aparecer? Se a resposta for sim, tenho certeza que você vai gostar muito de conhecer a Roda da Vida, uma ferramenta incrível de autoconhecimento!

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