Por Dimitri Vieira

Editor-chefe do blog Comunidade Rock Content.

Publicado em 06/09/2018. | Atualizado em 09/01/2019


Muito se fala em nomadismo digital, mas as mídias sociais romantizam demais esse estilo de vida. Este artigo vai desmistificar várias maravilhas da vida nômade e te levar a refletir se ela é ou não para você.

Nômade digital é um termo que vem se popularizando muito e define o profissional que trabalha remotamente, sendo capaz de exercer suas atividades em qualquer lugar do mundo. Desde que haja uma boa conexão de Internet.

E logo de cara, preciso fazer um disclaimer:

(Em inglês porque “aviso legal” não tem o mesmo impacto.)

Quando falo em nomadismo digitalnão me refiro ao sonho de largar tudo e viver viajando pelo mundo. Com exceção de períodos sabáticos ou situações com uma bela herança envolvida, isso não existe.

Nos demais casos, trata-se de uma fábula divulgada pelas mídias sociais para vender um sonho que, na verdade, é uma utopia.

Falo dos verdadeiros nômades digitais, que se desdobram buscando um planejamento ideal para conseguir trabalhar enquanto viajam. E vivem uma realidade bem diferente da clássica foto do computador na praia, que só funciona em bancos de imagem e perfis no Instagram.

“A partir de agora, toda vez que você encontrar a foto de um nômade digital na internet, lembre-se sempre que, por trás daquilo, existem muitas horas de trabalho, de tentativa e erro, de clientes perdidos, de clientes que não pagaram pelo trabalho, de incertezas, um monte de gente chamando ele de louco e ele mesmo se achando muito louco. (Fran Oliveira)”

Assim como diversos termos que se popularizam na era virtual, o nomadismo digital é muito romantizado e tem várias de suas dificuldades disfarçadas:

Ser nômade não é sinônimo de viver de férias

Mas sim, encontrar o equilíbrio perfeito entre trabalho, viagem e lazer. E pode ser extremamente complicado conciliar esses três fatores.

Por um lado, você tem uma enorme tendência em procrastinar e querer conhecer os novos lugares que está visitando.

Por outro, existe o perigo de jamais conseguir se desligar do trabalho e se tornar um workaholic — mais um termo que é muito romantizado. Ser dedicado é uma coisa, mas se tornar obcecado é um outro nível nada positivo.

Desligar do trabalho é saudável e necessário. Inclusive, é exatamente por isso que as férias são obrigatórias para quem trabalha em regime CLT.

Eu adoro meu trabalho e amo viajar, mas não vejo muito sentido em misturar os dois. Soa como aquelas receitas ousadas na culinária de misturar doce com salgado, que sempre despertam sentimentos extremos: ou você ama, ou odeia. Não tem meio termo.

Prefiro tirar férias sem um notebook na bagagem

Primeiro porque prefiro até viajar sem cinto, quando possível, para passar mais rápido pela revista e pelo raio-X nos aeroportos.

Mas, principalmente, porque prefiro focar minhas preocupações em coisas como o cronograma para conhecer os pontos turísticos que vou seguir, os bares que vou visitar e os shows que vou prestigiar. Coisas improdutivas mesmo, sabe?

Deixo que os deadlines aguardem meu retorno e o responsável pelo TI se preocupe com o fato de a conexão wi-fi estar funcionando ou não.

E se não estiver funcionando, minha única preocupação vai ser não poder enviar uma mensagem no WhatsApp ou uma foto no Instagram. Se é que isso pode ser chamado de preocupação.

Muitas pessoas sonham em mudar de onde estão, seja de cidade ou país. E a ideia de ser nômade encaixa como o álibi perfeito para estar em constante movimento, sem jamais fixar raízes.

“A mudança é renovadora. Ela nos traz novos olhares para o que fazemos e para quem somos. É um estilo de vida mais leve, você se desapega das coisas materiais e passa mais tempo com você mesmo, o que é ótimo para quem quer atingir o seu potencial e ser criativo. ( Juliana Saldanha)”

Essa liberdade se tornou não apenas um estilo de vida, mas também:

Uma jornada de autoconhecimento

Viajar, passar mais tempo sozinho e ter que se virar é, de fato, uma excelente maneira de se conhecer melhor. Todas as pessoas que passam por essa experiência dizem isso — incluindo eu —, mas sabe por que?

Porque tira você da sua zona de conforto.

” Existe algo mais realístico e humano do que passar uns perrengues? Pois esse caminho (o nomadismo) está cheio deles. Intensificado pelo fato de você estar levando a casa e o escritório nas costas. ( Marcos Korody)”

Mas o que ninguém te conta é que, se você não deixa sua zona de conforto em sua cidade natal, provavelmente também não irá deixá-la em outra cidade, país ou continente.

O que transforma a vida nômade em uma jornada de liberdade e autoconhecimento é a atitude. Não apenas a passagem de avião.

” Nenhum nômade que conheço foi pego pela mão e colocado num avião. A principal característica dessa galera é saber se virar. ( Matheus de Souza)”

E te digo mais: para nos conhecermos melhor e termos a atitude de um nômade, não precisamos ir tão longe.

Os desafios de uma rotina convencional podem surtir o mesmo efeito. Desde que te estimulem a deixar a zona de conforto, aprender mais e não acomodar.

“Não se conforme com uma vida mais ou menos, com um emprego mais ou menos. Cada escolha é uma renúncia e um ato de coragem.Se você não sabe o que merece, qualquer coisa serve. Se você não sabe do seu valor, qualquer pessoa serve. (Priscila Kamoi)”

Por fim, você se lembra do desfecho de Na Natureza Selvagem?

A felicidade somente é real quando compartilhada

Aqui, posso falar um pouco da minha experiência pessoal. Nunca fui nômade, mas fiz um intercâmbio, na Inglaterra, que durou um ano — pelo programa Ciência sem Fronteiras.

As principais motivações para essa experiência foram a possibilidade de morar na Europa, estudar numa universidade britânica, conhecer novas cidades, países, culturas e — não vou negar — poder ver os shows de alguns artistas que insistem em não vir ao Brasil.

Mas a melhor parte acabou sendo conhecer várias pessoas que compartilhavam dessa mesma mentalidade e estavam dispostas a viver tudo isso comigo.

E a parte mais difícil foi a despedida.

“Quando você está vivendo suas experiências ao máximo da sua capacidade humana, você absorve os lugares. Você se conecta às pessoas. Desapego pode ser tendência, mas é cansativo se apegar e se desapegar todos os dias, e se despedir dos laços que você amarrou em Roma nas semanas que se passaram. ( Marcos Korody)”

No caso do nomadismo, precisamos não apenas aceitar essas despedidas como parte da rotina, mas também lidar frequentemente com nossos entes queridos a distância e perder várias ocasiões especiais.

Muito provavelmente, é por isso que vemos tantos casais nômades:

Já parou para pensar nisso?

Antes de finalizar, é bom ressaltar:

Admiro muito esse estilo de vida e vários de seus adeptos.

Inclusive, não sei se você reparou, mas todas as citações que usei neste artigo são de nômades. Todas foram retiradas de um ebook com depoimentos dos 10 principais nômades digitais brasileiros.

O nomadismo não é para mim, mas talvez seja para você. E se quiser conhecer o outro lado da moeda contado por quem realmente vive esse estilo de vida, é só acessar o ebook! 😉

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