Por Bruna Gomes

Publicitária. Mãe de cachorro. Amante de filmes, séries e música.

Publicado em 01/05/2019. | Atualizado em 30/07/2019


Já parou para pensar nas histórias por trás das suas músicas preferidas? Selecionamos algumas músicas que farão você mergulhar nas ondas sonoras do storytelling.

Você provavelmente tem músicas que marcam momentos importantes na sua vida. Ou aquelas que você escolhe como preferida pela letra, melodia e artista. Apesar de não cantar nada bem, não ter familiar músico nem conseguir tocar nenhum instrumento musical, minha relação com música é forte e antiga.

Gosto de falar que uma das frases que resume essa minha relação, aparece no filme “Quase famosos” (cinema é outra grande paixão) onde há o seguinte diálogo:

– O que você mais ama na música?

– Primeiramente? Tudo!

Almost Famous Love GIF

É possível usar essa arte como forma de terapia, para relaxar e se concentrar ao escrever textos, por exemplo. Ou ter mais ânimo e sair da inércia e do bloqueio criativo.

As músicas conseguem unir a linguagem (escrita e falada) com um ritmo para contar histórias que sejam relevantes para o autor ou intérprete e público, muitas vezes levando em conta o contexto histórico e cultural onde essa música existe ou se inspira.

Parece difícil? Calma. Aqui vai uma seleção de algumas das músicas que carregam histórias que eu mais acho interessante.

1. Pumped up kicks, Foster the People

Apesar da melodia animada, dançante e que gruda na cabeça, Pumped up kicks é mais uma dessas músicas que contam histórias e, nesse caso, muito pesada. A inspiração da letra é um jovem que sofre bullying e decide fazer sua vingança com um massacre.

A letra é a partir do ponto de vista do jovem, o que é algo extremamente criticado, especialmente por colocar elementos de como o jovem se veste, se comporta, de sua rotina e que as pessoas de quem ele vai se vingar têm tênis da moda.

Apesar de Mark Foster, o autor e vocalista da banda, falar em uma intenção de fazer uma crítica social e reflexão e em fazer pessoas dançarem, a real pergunta é até onde é saudável que se tenha como animada uma música do ponto de vista de um assassino, considerando o histórico de tiroteios em massa.

2. Chão de giz, Zé Ramalho

Zé Ramalho traz, em chão de giz, uma história de vida pessoal, em que teve um relacionamento com uma mulher casada e mais velha que ele. A história é feita por metáforas, uma marca da poesia e também do próprio Zé Ramalho em suas músicas. Por exemplo, com as frases “há tantas violetas velhas sem um colibri”, e ainda “meus vinte anos de boy, that’s over, baby, Freud explica”, ele busca explicação na teoria edipista de Freud para sua paixão.

Essa não é uma canção de amor e sim de rompimento. O eu lírico se coloca como alguém que está saindo de um relacionamento onde não teve amor correspondido.

3. O homem na estrada, Racionais Mc’s

A maior marca do grupo Racionais Mc’s é contar a realidade de favelas brasileiras, incluindo o descaso do governo, o tráfico de drogas, a crítica ao sistema carcerário e à atuação da polícia para com essas pessoas.

Um homem na estrada nos coloca no ponto de vista de um ex-detento, que agora desempregado, narra o cotidiano no meio da violência e o desejo de sair desse lugar para que o filho não passe pelas mesmas situações que muitos ali.

No fim, podemos ver o preconceito e descaso da própria justiça. Após um boato de assalto, suspeitaram que tenha vindo daquela comunidade. De modo simplista, a polícia deduz que um ex-presidiário qualquer (nosso personagem principal) possa ter cometido. A ação policial passa por cima da justiça.

Enquanto o personagem afirma “já deram minha sentença e eu nem tava na treta”, a notícia por algum jornal, no último parágrafo, é outra: “Tudo indica ter sido acerto de contas entre quadrilhas rivais”.

4. Reconvexo, Maria Bethânia

Com letra de Caetano Veloso, a música faz afirmações e traz um saudosismo apaixonado à cultura brasileira. A história por trás é que um crítico musical tinha pegado pesado com Caetano e outros artistas, mas elogiava músicos estrangeiros. Caetano, que defendia que a cultura brasileira deveria ser enaltecida e reconhecida também, escreveu como um manifesto, apontando que careta na verdade era o crítico.

A história tem um eu lírico de afirmações e referências a lugares, como o continente africano (matriarca) e Salvador (Roma Negra) e também a pessoas (Dona Canô, Joãozinho Beija-flor). A música também não nega a exclusão da cultura estrangeira, como podemos ver nas citações a Andy Warhol e Henri Salvador. Essa é uma característica do movimento antropofágico, idealizado décadas antes de Caetano escrever “Reconvexo”.

5. Metrô linha 743, Raul Seixas

Raul chegou a sofrer sequestro, tortura e foi forçado ao exílio nos anos 70 com a ditadura militar no Brasil. Em 1984, o país começava seu processo de redemocratização, mas ainda vivia na ditadura e esta música, de álbum homônimo, foi lançada.

Raul coloca cenas do cotidiano de um perseguido pelo regime, nos coloca a tensão e o resultado fatal pelo “perigo” de policiais verem dois homens conversando baixo em um canto.

O storytelling nos mostra como a ditadura perseguiu pessoas pelo que elas pensavam: “o prato mais caro do melhor banquete é o que se come cabeça de gente que pensa”. Raul ainda usa de antropomorfismo com o próprio cérebro como personagem (já morto), quando fala “senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado”.

6. Piece of me, Britney Spears

Podemos encontrar músicas que contam histórias na cena do pop! Em “Piece of me”, Britney demonstra as críticas que recebe da mídia, muitas vezes contraditórias (está muito gorda ou muito magra). Mesmo após ter sido mãe, ela é perseguida e criticada.

Ainda assim, a mesma mídia que a ataca com críticas pesadas, continua correndo atrás para encontrar flagras e vender mais suas revistas e jornais com esse pedaço da Britney que eles não largam.

Também nos faz refletir sobre a forma que a mídia vende a imagem de artistas, muitas vezes sendo cruel com a vida pessoal deles. E também a forma como consumimos, como damos audiência a essas notícias sensacionalistas. Tudo isso com Britney!


7. Anunciação, Alceu Valença

Dentre tantas músicas que contam histórias, muitas foram criadas de forma muito simples, sem uma intenção de grande aprofundamento por trás da letra. Ainda assim, elas têm o poder de empregar significados para cada pessoa, individualmente. É o caso de Anunciação, do grande Alceu Valença.

Segundo o próprio Alceu, ele fez primeiro a melodia com uma flauta, e para a letra, usou elementos por onde ele passava enquanto tocava e de seu cotidiano com sua namorada na época.

Vemos esses elementos para representar, em poesia, uma manhã de domingo, em que havia sol quente e soavam os sinos das catedrais.

8. Alive, Pearl Jam

Eddie Vedder conta sua história real com essa letra, de quando sua mãe informou que seu padrasto não era seu pai verdadeiro, e que este tinha morrido. É uma música inicialmente triste, e de uma fase de reflexões e descobertas que foi a adolescência do autor.

Mas segundo o próprio Eddie Vedder, os fãs da banda conseguiram interpretar essa letra de uma forma positiva, revertendo o real significado. Enquanto “I’m still alive” (eu ainda estou vivo) inicialmente era depressivo para Vedder, para os fãs virou uma espécie de hino de superação, mudando a percepção do próprio Vedder para esse viés positivista.

9. The ketchup song, Las Ketchup

Las Ketchup foi um grupo espanhol e essa música é definitivamente seu maior sucesso. Essa é a história por trás da letra original da música que foi adaptada no Brasil como “ragatanga”.

Ela não chega a contar toda uma história, mas sim uma cena. A cena, no caso, tem como personagem Diego, que chega em uma discoteca e, dependendo da interpretação, pode estar alterado por drogas (lua em seus olhos/restos de contrabando).

A parte que você provavelmente já dançou da coreografia, é na verdade o refrão da música “Rapper’s delight” do grupo Sugarhill Gang, um dos percursores do hip hop americano. Mas Diego não sabe ou não consegue cantar o refrão em inglês direito — daí o “aserejé já” ao invés de “i said a hip hop”.



Aqui vão mais algumas sugestões dos nossos colegas da Comunidade:

10. Like a rolling stone, Bob Dylan

A música conta a história de uma mulher que vivia uma vida de riquezas, mas, de repente, suas relações superficiais, status e posses, se vão, e ela fica como uma andarilha (like a rolling stone). O eu lírico tenta, a todo o momento, dizer para ela que tudo aquilo que valorizava era passageiro, que tudo aquilo que ela menosprezava e ignorava, agora seria a realidade dela. E então ele pergunta diversas vezes “Como você se sente?”. Bob Dylan escreveu essa música para Edie Sedgwick, uma socialite com quem teve um relacionamento um pouco conturbado.

Ela foi uma “itgirl” super badalada na época em que as mulheres da nobreza tentavam, ao máximo, serem discretas. Tinha muitos amigos artistas e famosos, acabou estrelando alguns filmes. Só que a vida desregrada e as companhias que a desvirtuavam claramente desagradava Dylan, que não queria vê-la se envolvendo com drogas.

Um desses “amigos” era Andy Warhol, que tinha o cabelo platinado e um gato siamês, que são citados na música (You used to ride on the chrome horse with your diplomat, who carried on his shoulder a siamese cat).

Um dia Dylan cansou das tentativas de resgatá-la desse mundo superficial, sumiu em turnê e quando retornou, já estava casado. Ela, anos depois, morreu de overdose.

– Amanda Gusmão

11. Rehab, Amy Winehouse

O álbum Black to Black era praticamente autobiográfico e uma das faixas de maior sucesso foi “Rehab”. A música fala exatamente sobre o começo do fim, quando os amigos perceberam que seus problemas com a bebida estavam piorando e sugeriram que ela fosse para uma clínica de reabilitação.

Na letra, ela declara que está bem e prefere ficar em casa com Ray (Charles). Em entrevistas, Amy afirmou que o pai a apoiou na decisão de não ir para reabilitação, o que é demonstrado no trecho “meu pai acha que estou bem”.

No desfecho da história, vemos uma Amy já cansada de viver assim, que só quer melhorar, parar de beber e precisando do apoio de um amigo. Mas, infelizmente, ela continuou dizendo “no,no,no” para a reabilitação.

– Samantha Conti Panzini

12. Nothing Else Matters, Metallica

Foi composta por James Hetfield durante a turnê do álbum “And justice for all”. Era uma reflexão sobre a saudades da família e amigos, mas que apesar dela, precisava continuar fazendo o que amava (“Life is ours, we live it our ways”). É uma música encorajadora em todos os níveis. Para as batalhas que temos que travar com nossos próprios sentimentos, pelos dilemas que nos fazem abrir mão de coisas que também são valorosas por um sonho maior.

Ela faz o ouvinte acreditar que ver as coisas por um outro ponto de vista (“Open mind for a different view, and nothing else matters”) faz com que ele se desamarre de conceitos e regras que o impedem de seguir em frente. Para uma banda de Rock, que veio de uma cidade que não curtia o estilo musical, que teve algumas tragédias no seu percurso, que foi julgada de várias maneiras e ainda assim, prosperou, dá para imaginar que diversas vezes eles acharam o fardo pesado demais, a briga e o preconceito gigante.

Mas ainda assim, seguindo sua essência e honrando todos seus sacrifícios pessoais, eles não desistiram gritando a plenos pulmões que nunca se importaram para o que os outros diziam, o jogo que jogavam, o que faziam ou sabiam.

Apesar de ser uma reflexão íntima, acho que todo mundo precisa entender que seguir seu coração não é um caminho fácil, que sempre vão haver julgamentos, que sacrifícios são necessários, mas se você estiver movido pela sua verdade, nada mais importa.

-Amanda Gusmão

13. Acrilic on Canvas, Legião Urbana

O título Acrilic on Canvas refere-se a uma técnica utilizada na pintura artística. Isso, porque a música utiliza elementos dessa arte para falar de um amor perdido. Ela passa por todos os estágios do relacionamento, falando sobre as idealizações do outro que fazemos no início (“de você fiz o desenho mais perfeito que se fez”) e das expectativas (“misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos de um dia sermos três”).

A história sugere que traições aconteceram e o relacionamento foi se desgastando. Ele ainda tenta construir uma tela com partes de suas vidas (a cama, o lençol, a porta) na esperança de manter o relacionamento vivo. Mas, as traições se repetem e o relacionamento termina.

A amada já não mora mais ali. E só o que restou foi a saudade e a eterna tentativa de “pintar as flores” do “amor-perfeito” e “não-te-esqueças-de-mim.

-Samantha Conti Panzini

Estes foram alguns exemplos de músicas que contam histórias. Mas é importante ter em mente, a cada música que ouvir, que nem sempre seus artistas vão contar essas histórias. Muitos por quererem guardar para si mesmos e deixarem a interpretação mais aberta ao público.

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