Por Andressa Amâncio

Redatora compulsiva, futura linguista apaixonada, mãe maluca.

Publicado em 17/09/2019. | Atualizado em 12/09/2019


Você sabia que o nosso incômodo com filmes mal dublados tem explicação científica? Tem sim! E esse mesmo incômodo pode estar presente nos seus conteúdos se não houver a escolha certa do tom de escrita.

Você é do time que prefere filmes e séries legendados porque acha dublagem ruim? Temos uma boa notícia: a partir de hoje, você pode se defender com propriedade quando for chamado de frescurento por causa disso! O incômodo com filmes dublados pode ser explicado cientificamente a partir do fenômeno conhecido como Efeito McGurk.

E mais: com base nisso, você vai entender por que os tons de escrita nos seus conteúdos fazem tanta diferença. Assim como é estranho ouvir uma fala desalinhada ao ator ou à cena, a gente também se incomoda com textos que parecem completamente fora da realidade em que se inserem. Confuso? Então, continue a leitura!

O Efeito McGurk: por que dublagens malfeitas são incômodas?

Se você é fã do Porta dos Fundos, já deve ter visto o vídeo Versão Brasileira. É um pouquinho antigo, mas muito engraçado! O tema do esquete é o estranhamento que uma dublagem pode causar quando não há uma boa combinação entre a voz e a figura do ator:

O vídeo também faz piada sobre como palavrões e outras expressões típicas do cotidiano não são fielmente representadas na dublagem, o que leva a pérolas como “Cacilda!”, “Pombas!” e “Melda!”.

Mas essa temática não é tão inédita. O desconforto quando há dessincronização entre as falas dos atores e a voz dublada já foi motivo de piada para o Casseta & Planeta, ainda em 1992, com a saudosa “dupla de dois tiras”. Alô, nostalgia!

A graça estava justamente nas dublagens de filmes americanos que quase nunca correspondem à realidade da língua falada. Então, se você é do time dos que preferem os legendados porque acha que uma dublagem malfeita pode estragar o filme, não é frescurento, apenas acha esse incômodo mais relevante para a experiência do usuário, nesse caso, do espectador.

Mas por que as dublagens malfeitas nos incomodam tanto?

A resposta pode estar no Efeito McGurk, um fenômeno de percepção sensorial. É assim: a visão dos lábios se mexendo pode alterar completamente o que ouvimos, ocasionando uma ilusão sonora. Veja este vídeo da BBC para entender melhor (pode ir direto para a marca de 0:31):

Em resumo, o Efeito McGurk acontece porque nossa compreensão de mundo dificilmente se dá a partir de um único sentido. A gente pode até pensar que é fácil separar um som de uma imagem ou um cheiro de um sabor, mas não é bem assim. Nosso cérebro tende a interpretar os diversos estímulos como um único evento.

Se há um desalinhamento nesses componentes, o resultado é uma estranheza perceptiva, já que ocorre uma interferência entre eles. Isso pode ser tanto por causa da falta de sincronia, como pelo uso de expressões linguísticas que não condizem com a imagem e, consequentemente, com as experiências que ela movimenta em nosso subconsciente.

Para deixar um pouco mais simples, vamos voltar ao vídeo do Porta. Visualmente, temos o Gregório interpretando uma pessoa comum, em um cenário que corresponde aos dias de hoje e em uma situação casual. Nosso conhecimento de mundo nos leva a esperar que ele use um registro bastante informal e atual em suas falas.

No entanto, o som inserido com a dublagem entrega um “Cacilda!”, uma expressão quadrada e que dificilmente seria empregada nesse contexto. Daí, a interferência entre os estímulos sonoro e visual nos causam um incômodo.

A subvocalização: como se relaciona à capacidade de leitura?

Agora, vamos a outro ponto importante. Você já reparou que, quando estamos lendo, ouvimos uma “vozinha mental”? Não é o grilo dando lições de moral no seu ombro, não. A subvocalização é um fenômeno bastante comum e é responsável por aquela sensação de ouvir a voz da pessoa quando você lê uma mensagem no WhatsApp, por exemplo.

Isso é fruto da nossa memória auditiva e, inclusive, há técnicas que tentam ajudar pessoas a eliminar a subvocalização para tornar a leitura mais dinâmica.

Também é por conta dessa memória que nós conseguimos ler palavras memso se algumsa letrsa esãto embraalhaads. É quase como se nosso cérebro conseguisse prever o que vem a seguir, apenas pela leitura da primeira letra, né?

Na verdade, é exatamente isso que acontece! De acordo com o Professor Doutor Lars Muckli, da Universidade de Glasgow, na Escócia, nós somos capazes de pequenas “previsões” visuais. Ele é especialista em neurociência visual e cognitiva e defende a teoria do “cérebro preditivo”, que você pode entender melhor no artigo da Horizon Research & Innovation.

O texto está em inglês, mas a teoria basicamente afirma que, em vez de apenas examinar o que vemos, nosso cérebro tem um sistema de processamento bastante complexo que consegue antecipar estímulos visuais algumas frações de segundos antes que eles de fato ocorram.

Os tons de escrita: qual é a importância para a experiência da persona?

E o que tudo isso tem a ver com o marketing de conteúdo? Como vimos, não dá para separar o estímulo visual do sonoro. Aqui, podemos definir o primeiro como o texto escrito, e o segundo como a subvocalização natural, que vem principalmente do contexto em que estamos inseridos e das experiências de mundo resgatadas pelo nosso cérebro no processamento da leitura.

Com isso em mente, o que acontece é que um texto escrito com um tom muito formal ou técnico, para um público que espera uma leitura descontraída, pode não resultar em uma boa experiência.

É claro que sempre há diferenças entre a linguagem escrita e falada, mas nós temos uma tolerância a divergências mais esperadas, como o uso do pronome oblíquo (“ele a viu”, em vez de “ele viu ela”, usado mais comumente na fala cotidiana).

Agora, veja bem: o marketing de conteúdo é normalmente utilizado como um instrumento profissional, seja para aumentar a autoridade de uma marca, seja para guiar o usuário por uma jornada de compra.

As experiências de mundo do leitor o farão ter a expectativa de uma linguagem mais alinhada a esse contexto. Então, aí vão algumas dicas universais para a produção de conteúdo:

  • evitar palavras que não são bem recebidas em ambientes profissionais, como palavrões;
  • usar neologismos e gírias com cautela, pois elas são recicladas com frequência e podem gerar ruídos no entendimento do significado;
  • escrever com um foco segmentado, de modo que o tom de escrita seja direcionado de acordo com o que é mais natural para o seu público.

Em relação a esse último tópico, a chave é elaborar personas para seus conteúdos. É o melhor jeito de sempre manter o tom de escrita alinhado à expectativa do leitor. Afinal, você consegue ter uma boa ideia de quem vai ter contato com o conteúdo e quais são as principais características contextuais.

Um tom de escrita que não é pensado na persona pode causar o mesmo efeito de um filme mal dublado: uma sensação de que há alguma coisa errada que dificulta o estabelecimento de conexão ou mesmo a compreensão das informações.

Até porque a nossa incrível “máquina de previsões” se baseia, sobretudo, no contexto para assimilar e processar a leitura — das letras inseridas em uma palavra, ou do texto inserido em um ambiente situacional.

Enfim, o incômodo com os filmes dublados e o Efeito McGurk nos mostram que a capacidade de compreensão é multisensorial. Isso significa que o seu público não vai passar pela situação de leitura sem interferências do estímulo sonoro automático, consequentemente, movimentando experiências perceptivas.

Em resumo, cuidar para que haja um alinhamento entre os tons de escrita e as expectativas da persona — conscientes ou subconscientes — é fundamental para que o processamento da leitura seja agradável.

Então, baixe nosso ebook sobre como criar uma persona e evite que seus conteúdos fiquem parecendo dublagens malfeitas!

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