Coluna Freela

[Coluna Freela] Como uma Doutora em Letras assumiu a vida de freela?

Toda semana, elegemos um freela para escrever para a gente com pauta livre. Assim, conhecemos melhor a nossa Comunidade e você também. Essa é a história de como a Helena — doutora em Letras — se descobriu como freela.
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A princípio, o título deste artigo não tinha interrogação. Ela só apareceu quando me sentei à frente do computador e percebi que não se tratava de uma afirmação, uma explicação, como tantos outros textos que saem das mãos de redatores e revisores todos os dias: “Como fazer tal coisa em 5 passos simples”, “Como saber se seu cachorro tem pulga”, “Como organizar sua cozinha”, “Como a empresa X melhorou suas vendas” etc. Esse tipo de post, que se inicia com “como”, pretende informar a maneira, detalhar o passo a passo para atingir determinado objetivo ou contar uma experiência de sucesso.

Pois é. Eu havia pensado que iria — e estava me preparando para — narrar como uma Doutora em Letras assumiu a vida de freela. O problema aqui é que percebi, assim que digitei o título, que não seria tão simples fazer isso, a começar pela seguinte dúvida: quando a ação do verbo assumir, no pretérito perfeito do indicativo, ocorreu? E mais: por que ocorreu?

Para início de conversa, o próprio verbo “assumir” carrega em seu significado um pouco de coragem, não é? Sua definição é “tomar para si”, “declarar-se” e “aceitar, mostrar ou reconhecer publicamente determinado estado ou condição” (PRIBERAM, 2013). Quase chego a pensar que eu era uma revisora “de armário” e só agora me declarei!

Sim, é preciso um pouco e coragem para assumir a vida de freela aos 47 anos, ainda mais carregando o “peso” de um doutorado. Isso porque as pessoas parecem atribuir valores diferentes aos estudos acadêmicos e ao trabalho de redação e revisão, como se ser freelancer fosse um “bico” ou significasse ser “menos” do que ser professor (e olha que, de acordo com essa escala, professores nem ocupam uma posição tão alta! Lá no topo estão médicos, advogados etc.).

Só posso dizer que aprendi tanto neste último ano, nos cursos da Universidade Rock Content e nos webinars quanto nas pesquisas e nas disciplinas do doutorado. Entendam bem, não desmereço nem um nem outro, mas são saberes com exigências e demandas diferenciadas, que se complementam. Não tem melhor ou pior, mais ou menos. Aprender é aprender. E ponto.

A verdade é que tenho a sensação de estar assumindo a vida de freela aos pouquinhos (como quando se coloca o pezinho na água, com medo de ela estar fria), do início de 2018 pra cá. Assumo quando peço demissão do colégio onde lecionava, assumo quando fico em segundo lugar em um concurso super disputado, e só havia uma vaga, assumo quando me proponho a escrever este texto.

A interrogação. portanto, é o próprio ato de assumir. Então, vou pontuar alguns fatos e, com sorte, chegaremos à resposta à segunda pergunta, ao porquê.

Muitos colegas de comunidade acabaram adotando a carreira de freela sem querer — e a maioria é bem mais jovem que eu também! Esse não é o meu caso, pois comecei a revisar textos “por conta própria” assim que terminei a graduação em Letras (já se vão uns 25 anos). Naquela época, o significado da palavra freelancer se restringia ao trabalho de jornalistas que não eram contratados. Eu nem imaginava que, um dia, iria me encaixar nessa categoria!

A revisão me acompanhou como uma atividade secundária, uma complementação da renda. Mas sempre foi também prazerosa: fazer o texto chegar à sua melhor forma, ajudar autores a se expressarem melhor, receber um elogio da banca de defesa. Tudo isso é muito gratificante.

O boca a boca e as indicações de clientes e colegas nunca me deixaram abandonar a tarefa. Nem mesmo quando eu tinha provas para corrigir, filhos pequenos para cuidar, dava aulas em duas instituições e, ainda, atuava como analista de redação do Vestibular da PUC Minas duas vezes por ano. Ufa!

Qual era, então, a minha primeira fonte de renda? O que eu respondia quando me perguntavam a minha profissão, o que eu faço? Temos a estranha mania de perguntar o que a pessoa “é” quando queremos nos referir à sua profissão, não é verdade?

Eu respondia (e respondo, ainda, dependendo da situação…): “sou professora”. Sou sim, e me orgulho muito disso.

Depois da graduação, vieram o mestrado e o doutorado. A carreira acadêmica. A pesquisa. As atividades de extensão. Os eventos. As comunicações. Tá tudo lá no Lattes. O dia a dia da sala de aula, a convivência com os alunos, os desafios e as angústias. As alegrias (isso o Lattes não conta).

E fui seguindo — e amando — a carreira docente, achando tempo para revisar textos sempre que solicitavam meus serviços: teses, dissertações, artigos, livros e revistas.

Até que, em 2016, terminando o ano letivo, fui informada de que a instituição onde havia atuado por 18 anos havia resolvido retirar a disciplina Língua Portuguesa (acreditem!) da grade curricular do curso de graduação.

Quinze dias depois, eu mesma pedi demissão do colégio onde lecionava. Hora de iniciar as mudanças, mas eu ainda não sabia disso. Queria descansar, viajar, pensar na vida. O curioso é que consegui fazer isso tudo em um ano, e ainda em sala de aula, só que pela primeira vez em uma instituição pública, a UEMG, onde fiquei até o término do contrato. Mais um ano de maravilhoso aprendizado!

E aí, foi questão de tempo (ou, pelo menos, tem sido). A segunda opção foi se tornando a primeira. O esforço e o tempo dedicados à procura por emprego foram sendo tomados por cursos online, pesquisas e jobs de um universo com o qual eu estava pouco familiarizada: o do marketing de conteúdo. Também pude acompanhar mais de perto meus clientes de revisão acadêmica e literária.

Então, “como uma professora, Doutora em Letras, vira freelancer?”. Não, ao contrário do que muitos possam pensar, não estou jogando fora minha experiência, meus títulos e meus conhecimentos. Estou, isso sim, somando: gramática a SEO, linguística a marketing, teoria da enunciação a hiperlinks, discurso a empreendedorismo.

Poderia estar na sala de aula? Claro, também estaria feliz. Mas agora, neste ano em que a vida de freelancer praticamente me assumiu (rsrs), é aqui que quero ficar. Quero continuar a ter coragem, sabedoria e discernimento para continuar fazendo escolhas certas.

* Agradecimento especial a quem me apresentou o marketing de conteúdo e a Rock, minha filha Gabriela Contaldo.

Helena Contaldo

Helena Contaldo

Doutora em Letras, redatora e revisora freelancer especializada em Produção de Textos e Educação.

Essa foi a história de como a Helena — doutora em Letras — se descobriu como freelancer.
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