Por Larissa Mendes

Revisora web, professora de francês e mestranda em literatura francesa.

Publicado em 24/07/2020. | Atualizado em 24/07/2020


Ao trabalhar como freelancer de revisão de conteúdo para web, aprendi alguns macetes que só a experiência traz. Decidi compartilhar as principais lições neste artigo para, quem sabe, ajudar você que quer começar na área. Acompanhe!

Comecei a trabalhar como freelancer de revisão de conteúdo para web há mais ou menos dois anos. Era estudante de graduação em Letras Português-Francês, fazia estágio em uma editora e queria trabalhar com revisão. Se você também tem esse interesse, provavelmente fica perdido pensando por onde começar, não é?

Foi na Rock Content que comecei a trilhar meu caminho na profissão e a me encantar com a possibilidade de revisar conteúdos para web. Já contei minha história por aqui, e repito: uma das maiores vantagens de trabalhar com Marketing de Conteúdo é justamente a diversidade de temas e formatos que reviso no meu dia a dia! Definitivamente, tédio não faz parte da minha rotina.

Nesse meio tempo, percebi que aprendi muita coisa sobre o trabalho de revisão freelancer e as particularidades de trabalhar revisando nesse contexto, o que me fez desenvolver habilidades e olhares bem diferentes.

É por isso que decidi compartilhar com você os 6 maiores aprendizados que tive durante esse período. Acompanhe!

1. Desconfie de tudo

Acho que uma característica primordial para quem deseja trabalhar com revisão é a desconfiança. Será que a palavra se escreve assim mesmo? A preposição que acompanha este verbo nesse sentido está correta? O nome do ator é esse mesmo? Este dado está correto?

Ligue sempre o desconfiômetro no momento da revisão. Lembre-se de que você está realizando uma leitura profissional, então é obrigatório ser minucioso. Temos muita exceção da exceção, além da Reforma Ortográfica, que deixa a gente bem louco às vezes. Mas sem desespero: essa habilidade fica mais forte com o tempo.

A importância do sexto sentido

É até engraçado: muitas vezes, durante a revisão, me vem o sentimento de que tem algo errado. Não sei o que é, mas escuto a sensação e parto para a pesquisa.

Muitas vezes, era o nome do livro que estava incorreto; faltava uma letra no nome do autor; ou a preposição que acompanhava o verbo, apesar de bem comum, não é a recomendada pelas gramáticas.

Um exemplo é o verbo “focar”. Sabia que, de acordo com o Dicionário de Regência Verbal do Celso Luft, focamos “algo”, não “em algo”? Equivalente de “focalizar”, ele é transitivo direto, ou seja, sem preposição. O Aulete também não aponta existência de preposição. Por isso, “focar nos estudos” não estaria correto.

2. Entenda que você vai errar (e aprender técnicas para evitar erros)

Sim, você vai deixar passar errinhos e inadequações, que serão notadas pelos analistas ou clientes. Uma falta de atenção aqui, um cansaço ali, você achou que não precisava consultar o dicionário… voilà. Acontece, mesmo.

Eu sempre fico muito chateada quando isso ocorre, bate na autoestima e fico remoendo por um tempo. Porém, graças a esses deslizes, aprendi algumas técnicas para evitar erros bobos, que compartilho com você.

Confira. Confira de novo

A primeira, que já citei e repito, é o desconfiômetro. Não custa nada olhar o dicionário (de preferência, consulte dois, como VOLP, Aulete ou Houaiss), comparar os resultados e rever a regrinha e as indicações da gramática.

Apesar de muitos sites tirarem dúvidas de português e serem ótimos para clarear as ideias, não confie apenas neles: busque obras de referência, como o já citado Dicionário de Regência Verbal ou a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra.

Não confie só no seu olho

Além do corretor ortográfico do Microsoft Word ou do LibreOffice, use corretores on-line, como Language Tool, além de WriteWords ou Repetition Detector, que auxiliam na visualização de repetições de palavras, para complementar o seu trabalho. Ferramentas não substituem expertise, mas ajudam o olho humano a não deixar passar nada.

Não abra mão do CTRL+F/CTRL+L

Nosso cérebro não lê palavra por palavra. Com isso, você vai enxergar tudo direitinho, mesmo com troca ou falta de letras. Quer um exemplo? “Adminsitração”, no lugar de “Administração”. “Coronavirus”, no lugar de “Coronavírus”. “Pessoas” em vez de “pessoais”.

A lista é enorme! Isso sem contar errinhos como “todos as pessoas”, “uma caderno”, “nessa caso”. Por isso, a dica é sempre dar um CTRL+F/CTRL+L e procurar por:

  • seu/sua;
  • tod-;
  • ess-;
  • um.

Assim, você recupera esses deslizes sem muito esforço. Isso porque, muitas vezes, nem o Word pega esses erros! Outro exemplo é do tipo verbo e substantivo. Geralmente, as ferramentas não pegam coisas como “formulas” no lugar de “fórmulas”, pois a primeira é conjugação do verbo “formular” e não estaria incorreto.

Com essa técnica, você aproveita também outras coisinhas: com “ess-”, você vê, além de erros com esse/essa/esses/essas, repetição muito próxima de palavras como “essencial” e “necessário”.

Também é bacana ter uma lista própria por tipo de conteúdo. Por exemplo, temas voltados a Recursos Humanos têm tendência a repetir “empresa”. Ao jogar na busca, você consegue ver as ocorrências e trocar por sinônimos para não ficar repetitivo.

3. Não modifique o que você não sabe explicar

Uma coisa que aprendi na época do estágio e levo sempre é ter muita atenção antes de realizar uma modificação no texto. Primeiro, porque ele não é seu. Segundo: se o redator, analista ou cliente perguntar por que você trocou X por Y, terá uma explicação clara e coerente?

Se a justificativa for “porque sempre li assim”, “porque parece certo”, “porque acho que fica melhor”, spoiler: não é um bom argumento. Novamente: a leitura é profissional, não pode ser baseada em achismos. Veja que esses sentimentos de “acho que é assim”, como comentei no tópico anterior, são superimportantes na profissão, fazendo referência à sua memória de leitura, mas é essencial ir além.

É para evitar uma repetição desnecessária? É uma correção baseada em dicionários e gramáticas de referência? É por conta da adequação ao guia de estilo, à linguagem ou à persona do projeto?

Pense sempre em por que você está fazendo a alteração. A ideia é melhorar e lapidar o conteúdo de acordo com pauta, projeto e persona, não deixá-lo a gosto do revisor. A palavra de ordem aqui é: tenha critério.

E como ter critérios?

Estude, sempre. Além do curso de Revisão de Conteúdo para Web da Rock University (gratuito e com certificado), há vários cursos on-line voltados à revisão, com exercícios, explicações claras, indicação de bibliografia e tudo mais.

Eles são excelentes para refrescar conteúdos, aprender coisas novas com experts e ficar atualizado. Um deles é o da Universidade do Livro (UNIL), ligada à Unesp (Universidade Estadual de São Paulo). Aqui, estou falando do curso de Gramática para Revisores e Preparadores, com vários profissionais renomados.

Siga também perfis como o @revisãoparaque, que dá muitas dicas para iniciar na profissão, além de trazer conteúdo rico e tirar várias dúvidas comuns da língua portuguesa.

4. Saiba que tem dias que não vai rolar — e tudo bem

Entendi, depois de muito custo, que não somos uma máquina padronizada. Em alguns dias, fico cansada fácil, sobretudo dependendo do tipo de conteúdo e do nível de exigência do projeto no qual atuo. Nesses momentos, um artigo de mil palavras parece Os miseráveis, mesmo com poucas alterações a realizar.

Em outros, passo o dia todo revisando sem problemas, passando por posts de 3 mil palavras, e-books e e-mails de fluxo de nutrição. Não tem como todos os dias serem os mesmos em questão de ritmo e de produtividade.

Observe-se bastante, veja os temas com os quais você é mais ágil e aqueles que demandam cuidado maior e observe o seu rendimento. Planeje uma média e tente cumpri-la, sabendo que, às vezes, não vai rolar.

Esse cuidado é importante porque nosso trabalho é baseado na concentração e na atenção. Não dá para revisar com qualidade correndo ou quando estamos muito cansados. Vai passar algo e comprometer o resultado, não tem jeito. Então, saiba quando parar e descansar os olhos.

5. Perceba que o guia de estilo, a persona e a pauta são os seus melhores amigos

Enquanto as editoras, geralmente, têm um manual próprio, os projetos da Rock Content têm o guia de estilo e linguagem. Mesmo com clientes externos, muitos também tem esse tipo de guia. Não faça nada sem ler esse documento! É ali que estão as principais indicações para a produção dos conteúdos: palavras ou expressões proibidas, nomes de concorrentes, tom da linguagem, links obrigatórios…

Além disso, jamais perca de vista a persona do projeto. Lembre-se: a ideia é que o conteúdo seja rico e relevante para ela, sempre.

Por mais incrível que seja um artigo, se ele estiver inadequado ou não despertar o interesse da persona, não cumpriu com sua função. Pense bem: um conteúdo para um jovem que busca um curso universitário não terá o mesmo tom que um artigo voltado ao dono de um e-commerce de roupas que quer aumentar as vendas, não é?

Por fim, nunca esqueça a pauta. Ela que dá as principais orientações ao redator sobre o conteúdo: temas a serem abordados, links a serem inseridos, tópicos obrigatórios. Novamente: muitas vezes, o texto está até redondinho, mas faltava uma solicitação da pauta.

Atenção à ordem no processo de revisão

Sempre recomendo ler persona, pauta e guia de estilo antes de pensar em revisar qualquer coisa, por economia de tempo. No início, eu achava uma boa ideia realizar a primeira revisão “crua”, pensando que, independentemente de qualquer indicação, não poderia deixar passar “excessão” ou “por causa de que”. Em seguida, faria uma nova revisão após a leitura de pauta, projeto e persona.

Porém, isso não se mostrou uma boa estratégia. Afinal, muitos aspectos da língua são maleáveis a depender do contexto, e quem trabalha com português sabe disso muito bem.

Pense só: você saiu consertando contrações como “pra” ou “né” e, só depois, ao ler o guia, viu que elas eram aceitas e até incentivadas pelo projeto, pois este era voltado para um público bem jovem que está no pré-vestibular.

Outro exemplo: você achou que o artigo estava impecável, mas, ao ler a persona antes de realizar sua segunda revisão, viu que ela não tinha muito estudo formal e era necessário usar um vocabulário mais simples, sem deixar de falar de maneira profissional. Como resultado, o conteúdo, apesar de muito bem escrito, teria que ser totalmente adaptado.

Essas situações já aconteceram comigo, justamente porque achei que essa primeira revisão crua era mais produtiva. Cada um funciona de um jeito, claro, mas percebi que economiza muito tempo ler a pauta, a guia e a persona antes!

6. Saia da sua zona de conforto, mas nem tanto

Como comentei, a diversidade de temas é algo que amo na revisão de conteúdo para web. Educação, saúde, carreira, vendas, agronegócio, seguros, investimentos — só para citar alguns com os quais esbarro diariamente. Muitos deles, como você pode ver, bem distantes da minha formação na área de Letras.

Com o tempo, vi que alguns temas, apesar de não me serem tão familiares, eram muito bacanas de trabalhar e aprofundei-me neles. Foi aí que aprendi muita coisa que jamais teria aprendido sem o meu trabalho!

Porém, com outros, simplesmente não tinha match. Achava chato mesmo revisar, e a falta de conhecimento mais técnico podia fazer com que eu deixasse passar incoerências, como em conteúdos voltados para experts em tecnologia — o que, definitivamente, não é o meu domínio.

Então, decidi não aceitar projetos ou clientes relacionados a temas do gênero, e passei a focalizar justamente temas do meu interesse, mesmo que não fossem diretamente ligados à minha formação.

Pessoalmente, acredito que é possível fazer um trabalho de melhor qualidade assim: com um pezinho para fora da zona de conforto, mas não tão distante dela.

Espero que essas dicas tenham sido úteis para você, colega revisor freelancer. Apesar de serem baseadas na minha experiência enquanto revisora de conteúdo para web tanto na Rock quanto para clientes externos, acredito que muito do que aprendi seja aplicado a vários contextos de revisão. Ao trabalhar com língua, sabemos que não existem fórmulas prontas, mas nada melhor do que uma ajudinha para tratar o texto da melhor forma possível, não é?

Quer compartilhar a sua história por aqui? Que tal dar um depoimento na Coluna Freela?

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