Por Gustavo Grossi

Analista de Marketing na Rock Content.

Publicado em 12/01/2018. | Atualizado em 11/02/2020


Também chamadas de reduções braquigráficas, essas normas não são tão rígidas quanto você imagina.

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Você sabe o que é braquigrafia? Calma, não tem nada a ver com medicina, e nem é de comer.

Braquigrafia (do grego, brachys = curto, gráphein = escrever) é a técnica de escrever elementos semiológicos de forma reduzida, como abreviatura, abreviação e sigla. Estes são chamados de braquigramas ou reduções braquigráficas. Ou simplesmente reduções.

Nossa língua portuguesa é rica, seja no aspecto lexical, seja no aspecto social — vide os diversos falares pelo Brasil e pelos demais países lusófonos. E nossa gramática é uma das mais complexas entre as línguas indo-europeias. Assim, o uso de braquigramas é, indiretamente, consequência dessa riqueza vocabular.

Como redator de conteúdo, você precisa compreender perfeitamente o uso e as diferenças entre as formas de reduções, recorrentes em textos de variados gêneros e linguagens. Vale destacar: você pode recorrer às reduções tanto para escrever uma unidade de medida quanto para recriar um diálogo com traços de oralidade, característica de aplicativos de mensagem, por exemplo.

Portanto, neste post, vamos abordar a origem e os usos dos três tipos de reduções mais comuns na nossa língua: abreviatura, abreviação e sigla. Confira!

Abreviatura, Abreviação e Sigla

Hoje, com o ritmo acelerado da comunicação, tendemos a preferir frases e palavras cada vez mais breves. Economizar na fala e na escrita é uma tendência comum, como é facilmente verificado na linguagem online. Mas isto também é verdade mesmo em discursos ou escritas mais formais.

E nada melhor para representar essa economia de caracteres e palavras do que as reduções braquigráficas, como abreviatura, abreviação e sigla. Embora muita gente confunda os termos, eles têm significados diferentes entre si.

Até mesmo abreviatura e abreviação, que muitos dicionários trazem como sinônimos, possuem uma pequena diferença. Vejamos:

1. Abreviatura

A abreviatura pode ser considerada o encurtamento de uma palavra, fazendo uso de uma ou mais sílabas. Ela costuma terminar com um ponto final abreviativo, sinal que indica a sua redução.

Não existe uma regra para a formação de abreviaturas. Apenas o princípio de que a palavra deve ser interrompida em algum momento, normalmente terminando em consoante.

A forma mais simples de se fazer a abreviatura de uma palavra é pegar a primeira sílaba dela, acrescentar a primeira letra da segunda sílaba — caso esta seja uma vogal, continue até chegar à próxima consoante — e colocar um ponto final.

Exemplos:

Versão originalVersão reduzida
GramáticaGram.
AdministraçãoAdm.
ÁlgebraAlg.
ClínicaClin.

Quando a primeira sílaba das palavras é muito curta ou é uma vogal isolada, prolonga-se até a próxima sílaba. Por exemplo:

Versão originalVersão reduzida
AgriculturaAgric.
AnalíticoAnal.
AnatomiaAnat.
EnologiaEnol.

Outro caso é com palavras formadas por prefixos. O mais comum é que o prefixo apareça seguido da primeira sílaba ou da primeira consoante:

Versão originalVersão reduzida
AntropologiaAntrop.
AstrofísicaAstrofis.
BioquímicaBioquím.

Existem casos de abreviaturas que fogem totalmente a esses parâmetros acima. São exemplos comuns:

Versão originalVersão reduzida
CompanhiaCia.
LimitadaLtda.
Conta correnteC/C
Doutor, doutoraDr., dra.

E, por fim, há os casos de abreviaturas oficiais, regidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas — ABNT, que são usadas em documentos oficiais e acadêmicos.

É o caso, por exemplo, dos meses do ano, usados nas referências. A regra é simples: usa-se as três primeiras letras do nome, finalizando em ponto final: jan., fev., mar. etc. A única exceção se dá com “maio”, que não reduz e deve ser escrito por extenso.

Outros exemplos normativos da ABNT são:

Versão originalVersão reduzida
AnúncioAnún.
Diário OficialD.O.
ExercícioExerc.
ExportaçãoExpor.
FinanceiroFinan.
ImprensaImp.
IndicativoIndic.
LivrariaLivr.
LituanoLitu.

2. Abreviação

A abreviação se trata da redução de palavras sem prejudicar o seu entendimento. É comum que essas reduções se tornem mais populares do que os vocábulos originais, mais longos.

Diferencia-se da abreviatura por ter um sentido mais amplo — além de ser diacrônica, ou seja, a formação varia e se desenvolve ao longo do tempo. Vejamos alguns exemplos:

Versão originalVersão reduzida
PneumáticoPneu
AutomóvelAuto
MicrocomputadorMicro
FotografiaFoto
MotocicletaMoto
CinemaCine
TelefoneFone
QuilogramaQuilo
FaculdadeFacul

É também comum usar abreviações nas especialidades médicas, ao menos na fala:

Versão originalVersão reduzida
OftalmologistaOftalmo
CardiologistaCardio
PneumologistaPneumo
FisioterapiaFisio

No dia a dia recorremos à abreviação ainda para nos referir a termos geográficos:

Versão originalVersão reduzida
Rio de JaneiroRio
Foz do IguaçuFoz
São PauloSampa

3. Sigla

As siglas são um aspecto moderno da nossa língua. De acordo com a Nova Gramática do Português Contemporâneo — de Celso Cunha e Lindley Cintra —, a sigla:

“[…] é o processo de criação vocabular que consiste em reduzir longos títulos a meras siglas, constituídas das letras iniciais das palavras que os compõem.”

Ainda, o gramático Celso Luft em seu Novo Guia Ortográfico define sigla como um caso especial de abreviatura:

“[…] escrita abreviada de uma locução substantiva ou nome composto, mediante a representação das iniciais (maiúsculas) dos elementos componentes. […] Serve para representação abreviada de títulos de livros, revistas, jornais, departamentos, organizações, instituições, partidos políticos, etc.”

As siglas são também denominadas acrônimos. Mas, por convenção, chama-se acrônimo aquela sigla que pode ser lida como se fosse uma palavra. Quer um exemplo bem conhecido entre nós? Petrobras — sigla de Petróleo Brasileiro S.A.

Confira algumas convenções para o uso das siglas e acrônimos em um texto:

  • quando mencionada pela primeira vez, a sigla deve vir acompanhada de seu significado logo em seguida, separado por traço ou colocado entre parênteses. Ex.: UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais);
  • se o artigo ou a obra apresentar uma listagem prévia das siglas utilizadas, é desnecessário escrever o nome por extenso outra vez ao longo do texto;
  • siglas consagradas dispensam a redação de seu significado, como Embratel, Petrobras, CNPJ, ONU;
  • ao contrário das abreviaturas, as siglas não admitem ponto final;
  • siglas de até 3 letras são escritas todas em letras maiúsculas. Ex: USP, ONU, PUC, MEC;
  • quanto ao plural delas, ele pode ser feito adicionando o “s” minúsculo no fim, mas sem o apóstrofo. Ex.: ONGs (e não ONG’s).

Existem, por outro lado, siglas específicas que fogem às regras anteriores. É o caso de CNPq, UFSCar, UnB, ProUni, MoMA, ICMBio etc. O conselho é pesquisar como a instituição adota a grafia de sua sigla, porque é possível que ela seja consagrada, como aquelas exemplificadas neste parágrafo.

Casos especiais

Explicamos as diferenças e mostramos exemplos de abreviatura, abreviação e sigla acima. No entanto, ainda há casos especiais que merecem destaque à parte. Vejamos:

1. Internetês

A internet induz a linguagem a adquirir um formato reduzido, que ficou conhecido como internetês. Ele é uma maneira de grafar o português oral, mantendo, na escrita, a instantaneidade e elementos de oralidade de uma conversa.

Essa forma de se comunicar você conhece: ela está nos bate-papos online, nos chats, nos mensageiros instantâneos — WhatsApp, Telegram, Messenger, Skype — nos torpedos de celular, os SMSs, e nas redes sociais em geral.

A abreviação é a base do internetês, mas a pronúncia das palavras não se modifica; as regras de sintaxetambém se mantém inalteradas. As mudanças que observamos visam somente à aproximação da linguagem escrita ao modo e à agilidade de como falamos a língua atualmente. Veja as principais características do internetês:

  • retirada de vogais;
  • simplificação de regras ortográficas;
  • supressão de acentos a fim de manter o ritmo da digitação e agilizá-lo;
  • grafia não padronizada, aberta para diversas formas de grafar a oralidade;
  • exploração da visualidade por meio de pictogramas, representações visuais simplificadas com símbolos do teclado. Ex: 😀 (rosto sorridente);
  • uso recorrente de rébus, uma combinação de letras, algarismos e imagens para compor uma palavra. Ex: “d+” (demais), “9dade” (novidade), “v6” (você).

A linguagem da web já é estudada e aceita como uma variação linguística, embora haja conflito de opinião entre sociolinguistas e gramáticos tradicionais. Quando a linguagem começou a se popularizar, no esteio da disseminação do acesso à internet, houve quem a considerasse:

  • um código fechado;
  • uma escrita abreviada;
  • uma nova expressão que se opunha às normas da língua;
  • outra língua separada da portuguesa.

O fato é que, em consequência do ambiente informal que a internet oferece, esse novo linguajar já se tornou comum e aceito pela própria sociedade. Além da existência de termos próprios do mundo online, palavras comuns do nosso dia a dia sofreram reduções bastante peculiares.

Vejamos alguns exemplos típicos dessas reduções mais encontradas no nosso internetês:
Versão originalVersão reduzida
BelezaBlz
Amigo(a)Amg
VocêVc
CadêKd
MilK (em alusão ao símbolo do quilo, como veremos no próximo tópico)
RisosRs
QuandoQd
QuantoQt
NãoÑ
FirmezaFmz

E a lista acima continua ad aeternum. Agora, nesta altura do campeonato, ao falarmos das reduções próprias da linguagem informal presente na internet, vale a pena a gente observar alguns cuidados na hora de produzir conteúdo, blz? Conheça-os a seguir:

a) o que diz o guia de estilo

guia de estilo, ou manual da marca, tem a função de estabelecer regras para guiar o redator e outros colaboradores em relação à padronização do estilo de texto, formatação e tipo de conteúdo. Desse modo, todo material produzido ganha uniformidade e qualidade, não importa em qual canal será publicado.

Entre as regras, estão as boas práticas de redação que definem a linguagem e o tom de voz da marca. Nessa lista devem constar, por exemplo, os termos que devem ser escritos em caixa alta, as recomendações para uso do hífen — online ou on-line? —, o uso ou não de gírias, entre outros.

Se pensa em abraçar o “internetês” no post que você está escrevendo, não deixe de consultar o manual. Ele aceita a linguagem? Caso aceite, qual tipo de redução ele adota, já que é uma linguagem aberta?

Não há necessidade de padronizar as reduções da mesma maneira em todos os projetos que adotam essa linguagem. Entidades, empresas, blogs pessoais, enfim, cada cliente tem normas e preferências distintas. Em resumo, leve em consideração o conselho do escritor, revisor e tradutor Luiz Roberto Malta: “Dance conforme a música”.

Dentro de um mesmo projeto, porém, não há desculpa: é preciso, sim, padronizar as reduções e a linguagem em seus conteúdos. Se o cliente não possui um guia de estilo, antes de sugerir e/ou criar um que acate as reduções da internet, você precisa conhecer a quem se destina o seu trabalho. Logo, entram em cena as personas, tema do item a seguir.

b) identificação com a persona

Impossível pensar no estilo de escrita sem ter em mente a quem o conteúdo se destina. Conhecer a fundo a persona é necessário para garantir que a mensagem cumpra por completo a estratégia do cliente, e derrapar na linguagem pode levar tudo a perder. Nesse caso, algumas perguntas são pertinentes, como:

  • a persona do meu cliente se comunica dessa forma?
  • a persona entende as reduções comuns na internet?
  • a persona se identifica e recebe bem um conteúdo com essa linguagem?
  • o conteúdo justifica a utilização dessa linguagem?

Colocar essas questões em discussão asseguram a qualidade do texto, a leitura dele e o cumprimento dos objetivos da pauta. Caso contrário, o trabalho será em vão, e nenhuma ação pretendida por meio do conteúdo trabalhado será tomada pela persona.

Definir o uso ou não do internetês em um projeto, entretanto, extrapola a produção de um texto. A linguagem pode não se adequar a um artigo, por exemplo, mas seria pertinente escrever em internetês nos canais de divulgação do conteúdo — como nos posts de divulgação nas redes socais, meio mais informal, e nos comentários em resposta às dúvidas dos usuários.

Para cada cliente, uma estratégia. E a linguagem não pode ser deixada em segundo plano.

2. Sistema Internacional de Unidades (SI)

O segundo caso especial que separamos neste artigo diz respeito às abreviaturas, siglas e símbolos SI por conta de sua característica própria.

O Sistema Internacional de Unidades é o padrão métrico que utilizamos no meio científico. É importante conhecer, pelo menos, os principais símbolos, pois as chances são altas de você usá-los quando for redigir textos sobre assuntos voltados às ciências, principalmente as naturais. E estar íntimo deles significa evitar erros, às vezes absurdos.

Para citar um exemplo, é muito comum lermos por aí abreviação de “metro” como “mt” — ou, pior ainda, “MT” —, sendo que o correto é somente o “m” minúsculo. Observe que errar uma letra sequer já é o suficiente para a credibilidade do conteúdo ir para o lata de lixo…

Ainda existem confusões relacionadas a “quilômetro” e “quilograma”, como “Km” e “Kg”, respectivamente. O símbolo de quilo deve, obrigatoriamente, ser grafado com o “k” minúsculo, porque o “K” maiúsculo é o símbolo de Kelvin, unidade oficial de temperatura cuja escala é mais encontrada na representação das cores da luz.

Com frequência vemos também grafado como “seg.” a abreviatura de “segundo”, unidade de tempo, quando na verdade deve ser escrito somente o “s” minúsculo. Por outro lado, “minuto” é abreviado como “min.”, para não confundir com o “m” de metro.

Mas fique tranquilo, não é necessário passar o dia decorando regrinhas. Em língua portuguesa, você pode consultar o manual do Inmetro com todos os símbolos e abreviaturas do Sistema Internacional de Unidades.

Uma regra básica, sobre o assunto, é fundamental ter em mente: as unidades de medida não mudam no plural.

Como você pôde perceber, é bastante simples entender o uso de abreviatura, abreviação e sigla, e outros casos de redução braquigráfica. Basta lembrar de que estamos falando em convenções, não em normas gramaticais rígidas.

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